quarta-feira, 3 de junho de 2009

Texto um sobre o sapo barbudo Lula

O CARA E O CARISMA
Como o “sapo barbudo” de Leonel Brizola completou a sua transfiguração, tornando-se “o cara” de Barack Obama? Uma das hipóteses: lá fora, como aqui dentro, Lula é “o cara” porque governa segundo a profecia do finado Golbery, que viu no sindicalista o homem que destruiria a esquerda no Brasil
"Ele é o cara." Barack Obama, um gozador, provavelmente fazia uma ironia, mas Lula tomou a sério: ele sempre acredita na verdade dos elogios. Ironia ou não, “o cara” da Casa Branca falou o que muita gente pensa, com alguma razão. Lula tem um não-sei-o-quê, indefinível no campo tradicional da política. O nome disso é carisma. Difícil é descrever e entender o carisma.

O termo origina-se do grego, charis, que significa “graça”. No sentido corriqueiro, é um traço inato de personalidade com variados desdobramentos: magnetismo, charme, capacidades especiais de empatia e persuasão. De longe, na TV ou em comícios, Lula tem tudo isso, de sobra. Entre os que o conhecem de perto, as opiniões se dividem. O presidente, dizem, pode ser tão abjetamente desagradável com seus fiéis, aqueles de longo convívio, quanto charmoso ao extremo com autoridades, políticos, intelectuais e militantes que pretende seduzir.

“Graça” indica uma qualidade metafísica. Na eclesiologia da Igreja Católica, o carisma é um poder, concedido arbitrariamente por Deus, que corresponde a uma série de dons, como o exorcismo, o discernimento, a profecia e a glossolalia. Excluindo o primeiro, é possível argumentar que Lula evidencia dispor dos demais.

Discernimento é a capacidade de identificar a própria vocação, segundo a vontade divina. Lula imagina-se o salvador da pátria, como deixou claro tantas vezes, e talvez pense ser essa uma missão atribuída por Deus. Mas discernimento também se relaciona com o princípio moral de separar o bem do mal, consagrando-se ao primeiro. No episódio paradigmático do “mensalão”, o presidente certamente soube separar-se do mal, aos olhos da maioria da população, o que é diferente de engajar-se no lado do bem.

Profecia é o dom de conhecer informações indisponíveis por meios comuns aos demais seres humanos. Lula profetiza incessantemente, e nem precisa de um dom metafísico para fazê-lo. Basta-lhe o método, bastante terreno, de dividir a história do Brasil em dois períodos contrastantes: antes de Lula (a.L.) e depois de Lula (d.L). O período a.L. é uma noite dos tempos, dominada pela “elite que nos governa há 500 anos”. O período d.L. é o dia eterno, banhado pelo sol benigno do progresso e da realização dos sonhos. O próprio Lula é a aurora redentora, o momento mágico em que a claridade da manhã rompe a bruma e enche a terra de esperança.

Glossolalia é o fenômeno que ocorre, geralmente, em situações de exaltação religiosa, caracterizado pelo comportamento espontâneo de falar línguas desconhecidas, destituídas de significado sistemático. Os discursos de improviso do presidente talvez se enquadrem na definição, mesmo se são veiculados numa língua parecida com o português, pois carecem de sentido lógico. Mas o dom da glossolalia está, hoje, amplamente difundido entre os políticos brasileiros e já começa a extravasar para policiais que ambicionam uma carreira política.

O sociólogo Max Weber distinguiu três formas de autoridade política: tradicional, racional e carismática. A primeira, dos monarcas medievais, senhores feudais e chefes tribais, sustenta-se sobre privilégios de sangue e relações de poder interpessoais. A segunda, própria dos Estados modernos, ancora-se na legitimidade legal e na dinâmica de regras da burocracia pública. A terceira, que atravessa a história, baseia-se na devoção a um líder político excepcional, a quem se atribui o poder de ditar padrões normativos para toda a comunidade. No sentido weberiano, o Brasil organiza-se sob um regime de autoridade racional, mesmo se o presidente emerge como figura política dotada de traços carismáticos.

Como regra, a autoridade carismática desenvolve-se na moldura de regimes tradicionais ou racionais, desafiando seus alicerces políticos, tensionando-os e eventualmente gerando uma crise decisiva que conduz à ruína da ordem. Então, em meio à desordem, instala-se o poder pessoal do líder carismático e um regime fundado na rotinização do carisma. O percurso de Hugo Chávez pode ser descrito como uma busca, pontilhada de obstáculos e ainda não concluída, de substituir a ordem racional por uma ordem carismática na Venezuela.

Não há um paralelo verdadeiro disso no Brasil de Lula. O presidente enxerga-se como salvador providencial, mas, em virtude de uma convicção genuína ou do pragmatismo típico dos conservadores, escolhe a estrada da democracia quando confrontado com as encruzilhadas cruciais. Na sucessão, face ao surgimento de um incipiente “queremismo” lulista, Lula inventou uma candidata palaciana e desarmou a bomba do terceiro mandato.

O carisma, na política, é algo diferente da “graça” metafísica. A segunda, por definição, é uma qualidade imanente: ou se tem, ou não. O primeiro, ao contrário, depende de circunstâncias históricas. Lula perdeu eleição após eleição, até vencer e se tornar tão carismático quanto aparentemente imbatível. Há dois Lula. O original, sindicalista e líder partidário, era uma personalidade marcante, mas não uma figura a quem se atribuíam qualidades de exceção. O atual, presidente da República, será provavelmente lembrado como o mais carismático político brasileiro desde Getúlio Vargas. A transição de um para o outro reflete tanto as mudanças no discurso político de Lula quanto as demandas de um tempo.

Golbery do Couto e Silva, a quem se atribuía o senso político de um mago, enxergou o Lula sindicalista do fim da década de 70 como o homem que destruiria a esquerda no Brasil. Durante um longo tempo, o das candidaturas frustradas, Lula pareceu contrariar a profecia do “mago”, discursando como um esquerdista clássico, no diapasão do conceito de luta de classes. Mas, entre a derrota de 1998 e a vitória de 2002, ele promoveu uma mudança decisiva no seu discurso, trocando a referência dos “trabalhadores” pela dos “pobres”. No lugar da luta de classes, entrou o conceito do Estado paternalista, que se traduziria pela imagem, várias vezes repetida por Lula depois da chegada ao Planalto, do presidente como chefe e provedor da grande família do povo.

“Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados.” O carisma político de Lula ergueuse sobre a base de um paternalismo conservador, que ganhou densidade por meio da concessão de aumentos reais do salário mínimo e da vasta distribuição de dinheiro vivo, por meio do Bolsa Família. Ironicamente, nada disso seria viável sem o ciclo de expansão especulativa da globalização que acaba de se encerrar.

O “sapo barbudo” de Leonel Brizola completou a sua transfiguração às vésperas do primeiro triunfo eleitoral, por meio da Carta aos Brasileiros, concebida por um punhado de ex-trotskistas. O documento, uma negação geral do programa do PT, era uma mensagem à elite financeira e empresarial do país: Lula estava dizendo que se convertera à defesa da ordem, da estabilidade e da ortodoxia econômica. Nada se devia temer do antigo suposto incendiário. Mais ainda: ele prometia subordinar o movimento sindical e a organização dos sem-terra à vontade do governo, assegurando uma paz social que não exclui estampidos esporádicos. O presidente tornou-se “o cara” dos muito ricos antes mesmo de se tornar “o cara” dos muito pobres.

Obama brincava, mas não completamente, ao formular o agrado que encheu o ego de Lula. Como reação às crises financeiras dos anos 90, o pêndulo da América Latina inclinou-se de novo para o antiamericanismo. O Lula triunfante de 2002, líder de um partido que abominava a globalização, era uma incógnita e uma esfinge. Quando, ainda no início do primeiro mandato, ele visitou Washington e declarou-se um parceiro de George Bush, começou a se tornar “o cara” na conturbada América Latina. De lá para cá, apesar da retórica balofa e de gestos abomináveis em defesa de ditaduras próximas ou distantes, o Brasil não só conservou seus compromissos com a ordem econômica internacional como rejeitou o projeto chavista de um bloco regional antiamericano. Lá fora, como aqui dentro, Lula é “o cara” porque governa segundo o vaticínio do finado Golbery.

* Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP, é colunista de O Estado de S. Paulo e O Globo

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