quarta-feira, 3 de junho de 2009

2º texto sobre um sapo barbudo chamado Lula

AGORA É LULA

O mundo precisa de um bom selvagem. Desde o sindicalista polonês e anticomunista Lech Walesa, não havia nenhum candidato a esse posto no universo do proletariado. Só que Lula soube ir além da fábrica.
por Mac Margolis*
Desde a primeira vez que vim ao Brasil, no início dos anos 80, Lula era o cara. O.k., não aquele da cúpula das Américas, de barba e discurso bem talhados, seguido pelos holofotes e – agora – ungido com saudação à basqueteiro (“my man!”) do presidente Barack Obama. À época, Lula era apenas o sindicalista, andava maltrapilho e discursava de dedo em riste, com megafone em vez de teleprompter. Só que, para nós, os jornalistas estrangeiros, ansiosos para coroar um novo símbolo latino-americano – um líder que peitasse os generais, oligarcas e quem quer que fosse do establishment – não tinha para mais ninguém. A “pauta” era Lula, só ele.

E como não? Era o tempo dos megacomícios, das caravanas e dos slogans exaltados (“Uma estrela sobe”, “Sem medo de ser feliz” e “Lula-lá”). E as urnas? Bem, se os eleitores não correspondiam ao frenesi gringo, paciência. Um dia, dizíamos a nós mesmos, haveriam os brasileiros de enxergar em Lula o cara que víamos o tempo todo. Era só uma questão de tempo para que ele chegasse lá.

De lá para cá o Brasil mudou e Lula, também. Tem alfaiate, trocou de discurso e, hábil político que é, já desmentiu boa parte do que pregava. Foi-se aquele cara que exigia a auditoria da dívida externa aos brados de “Fora FMI!”. “Você não acha chique que agora estamos emprestando dinheiro ao Fundo?”, brincou outro dia com jornalistas após a reunião do G-20. Dobrou a resistência dos investidores e credores, abraçando políticas que outrora apedrejava. E aquelas taxas de juros “mais escorchantes do mundo” que antes não cansava de denunciar? O novo Lula as abraça com afinco neoliberal. Que Dilma que nada: o pilar do governo brasileiro se chama Henrique Meirelles.

Hoje Lula divide palanques com mandachuvas internacionais e até posou ao lado da rainha da Inglaterra. No maior estilo “se eu fosse você”, até ensaia o papel do outro lado do balcão financeiro, dizendo não aos vizinhos em apuros, como o Paraguai, que reclama perdão da sua dívida com o Brasil. Lula continua festejado como “o cara”, só que agora quem faz a festa são outros. Como me disse o executivo de um fundo americano: “Os banqueiros adoram Lula”.

Certamente a festa em torno do Lula 2.0 sinaliza algo maior. Há um novo Brasil em gestação, que, merecidamente, desperta as atenções (e as pretensões) do mundo. Não é apenas Gisele Bündchen, Ronaldinho e toda aquela turma de havaianas que esbanja superávits de charme e ginga. É também o Brasil dos agronegócios e do biocombustível. A pátria do pré-sal, que sabe e ensina buscar energia nos cafundós. Confiança é o novo ativo do Brasil, que, talvez pela primeira vez, consiga converter o berço esplêndido em influência, reivindicando um assento junto às mais altas instâncias internacionais, do BIS ao Bird, do G-20 à OMC. Pelo menos assim reza a cartilha do marketing verde-amarelo.

O mundo, é claro, até que deu um bom empurrão. Passado o susto geral provocado pela sua eleição – em que Lula se viu obrigado a convencer o planeta de que não era mais o cara do barulho e do confronto –, encontrou a economia internacional em ebulição, banhada de liquidez e voraz pelas mercadorias das nações emergentes. “Lula pegou a onda perfeita”, me disse um ex-presidente do Banco Central. O antecessor também ajudou. Partiram da caneta de Fernando Henrique Cardoso as políticas básicas da agenda de Lula, desde as metas de inflação à bolsa-escola, versão mais enxuta do Bolsa Família. Melhor, calhou que os principais frutos dessas políticas – a inflação em queda, bancos sólidos, a diplomacia vitaminada, a desigualdade em queda – dessem para aparecer justamente na sua vigia. Lula também é um cara de sorte.

Há riscos, no entanto, quando se colhe louros alheios. O sucesso herdado pode subir à cabeça. Assim como o “esqueça o que escrevi” virou pecha de Fernando Henrique e “não me deixem só” carimbou a acidentada trajetória de Fernando Collor de Mello, o bordão “nunca antes nesse país” ainda pode vir a assombrar o governo Lula. Há uma fronteira tênue entre húbris e habilidade, e todo governante em alta flerta com ela – alguns com mais êxito que outros. Carisma e simpatia ajudam, é claro, como também uma boa biografia – ou back-story, na linguagem de jornalistas. Esses dotes Lula tem de sobra. Iniciativas modernizadoras de um polido diplomata têm um valor. Mas saem com ágio na mão calejada de um self-made man. É como se o mundo precisasse de um bom selvagem. Desde o sindicalista polonês e anticomunista Lech Walesa, não havia nenhum candidato a esse posto no universo do proletariado tratável. Só que Lula soube ir além da fábrica.

Líderes bem-sucedidos também fazem sua sorte. Se fosse apenas um carismático ou um populista tradicional, Lula subiria à varanda, prometeria a lua e provavelmente tombaria assim que o vento da fartura virasse. Mas ele é, sobretudo, um sobrevivente. Para chegar “lá” teve de se repaginar, encampando ideias e aliados exóticos que, mesmo malcheirosos, o sustentassem. Às vezes Lula não convence totalmente nesse novo papel de adestrado e se deixa levar pelos arroubos ideológicos do seu passado dirigista (com a palavra a imprensa e os cineastas nacionais), tal como o braço desgovernado de Peter Sellers na pele de Dr. Strangelove, no filme Doutor Fantástico – ou Como Parei de Me Preocupar e Aprendi a Amar a Bomba.

Mas logo passa e até os banqueiros branquinhos de olhos azuis sabem que o líder do Brasil não está à beira de uma recaída. Se Lula não gostou das políticas que herdou, soube preservá-las e, assim, amortecer o choque do tombo financeiro que ameaça tornar a sua marola em tsunami. O cara soube dar a volta por cima. Pode não ser o roteiro que guiava aqueles que viram em Lula a senha para perder o medo de ser feliz. Mas, para o Brasil, a história pode acabar melhor.

* Mac Margolis é correspondente no Brasil da revista americana Newsweek. Vive no Rio de Janeiro desde 1982

Texto um sobre o sapo barbudo Lula

O CARA E O CARISMA
Como o “sapo barbudo” de Leonel Brizola completou a sua transfiguração, tornando-se “o cara” de Barack Obama? Uma das hipóteses: lá fora, como aqui dentro, Lula é “o cara” porque governa segundo a profecia do finado Golbery, que viu no sindicalista o homem que destruiria a esquerda no Brasil
"Ele é o cara." Barack Obama, um gozador, provavelmente fazia uma ironia, mas Lula tomou a sério: ele sempre acredita na verdade dos elogios. Ironia ou não, “o cara” da Casa Branca falou o que muita gente pensa, com alguma razão. Lula tem um não-sei-o-quê, indefinível no campo tradicional da política. O nome disso é carisma. Difícil é descrever e entender o carisma.

O termo origina-se do grego, charis, que significa “graça”. No sentido corriqueiro, é um traço inato de personalidade com variados desdobramentos: magnetismo, charme, capacidades especiais de empatia e persuasão. De longe, na TV ou em comícios, Lula tem tudo isso, de sobra. Entre os que o conhecem de perto, as opiniões se dividem. O presidente, dizem, pode ser tão abjetamente desagradável com seus fiéis, aqueles de longo convívio, quanto charmoso ao extremo com autoridades, políticos, intelectuais e militantes que pretende seduzir.

“Graça” indica uma qualidade metafísica. Na eclesiologia da Igreja Católica, o carisma é um poder, concedido arbitrariamente por Deus, que corresponde a uma série de dons, como o exorcismo, o discernimento, a profecia e a glossolalia. Excluindo o primeiro, é possível argumentar que Lula evidencia dispor dos demais.

Discernimento é a capacidade de identificar a própria vocação, segundo a vontade divina. Lula imagina-se o salvador da pátria, como deixou claro tantas vezes, e talvez pense ser essa uma missão atribuída por Deus. Mas discernimento também se relaciona com o princípio moral de separar o bem do mal, consagrando-se ao primeiro. No episódio paradigmático do “mensalão”, o presidente certamente soube separar-se do mal, aos olhos da maioria da população, o que é diferente de engajar-se no lado do bem.

Profecia é o dom de conhecer informações indisponíveis por meios comuns aos demais seres humanos. Lula profetiza incessantemente, e nem precisa de um dom metafísico para fazê-lo. Basta-lhe o método, bastante terreno, de dividir a história do Brasil em dois períodos contrastantes: antes de Lula (a.L.) e depois de Lula (d.L). O período a.L. é uma noite dos tempos, dominada pela “elite que nos governa há 500 anos”. O período d.L. é o dia eterno, banhado pelo sol benigno do progresso e da realização dos sonhos. O próprio Lula é a aurora redentora, o momento mágico em que a claridade da manhã rompe a bruma e enche a terra de esperança.

Glossolalia é o fenômeno que ocorre, geralmente, em situações de exaltação religiosa, caracterizado pelo comportamento espontâneo de falar línguas desconhecidas, destituídas de significado sistemático. Os discursos de improviso do presidente talvez se enquadrem na definição, mesmo se são veiculados numa língua parecida com o português, pois carecem de sentido lógico. Mas o dom da glossolalia está, hoje, amplamente difundido entre os políticos brasileiros e já começa a extravasar para policiais que ambicionam uma carreira política.

O sociólogo Max Weber distinguiu três formas de autoridade política: tradicional, racional e carismática. A primeira, dos monarcas medievais, senhores feudais e chefes tribais, sustenta-se sobre privilégios de sangue e relações de poder interpessoais. A segunda, própria dos Estados modernos, ancora-se na legitimidade legal e na dinâmica de regras da burocracia pública. A terceira, que atravessa a história, baseia-se na devoção a um líder político excepcional, a quem se atribui o poder de ditar padrões normativos para toda a comunidade. No sentido weberiano, o Brasil organiza-se sob um regime de autoridade racional, mesmo se o presidente emerge como figura política dotada de traços carismáticos.

Como regra, a autoridade carismática desenvolve-se na moldura de regimes tradicionais ou racionais, desafiando seus alicerces políticos, tensionando-os e eventualmente gerando uma crise decisiva que conduz à ruína da ordem. Então, em meio à desordem, instala-se o poder pessoal do líder carismático e um regime fundado na rotinização do carisma. O percurso de Hugo Chávez pode ser descrito como uma busca, pontilhada de obstáculos e ainda não concluída, de substituir a ordem racional por uma ordem carismática na Venezuela.

Não há um paralelo verdadeiro disso no Brasil de Lula. O presidente enxerga-se como salvador providencial, mas, em virtude de uma convicção genuína ou do pragmatismo típico dos conservadores, escolhe a estrada da democracia quando confrontado com as encruzilhadas cruciais. Na sucessão, face ao surgimento de um incipiente “queremismo” lulista, Lula inventou uma candidata palaciana e desarmou a bomba do terceiro mandato.

O carisma, na política, é algo diferente da “graça” metafísica. A segunda, por definição, é uma qualidade imanente: ou se tem, ou não. O primeiro, ao contrário, depende de circunstâncias históricas. Lula perdeu eleição após eleição, até vencer e se tornar tão carismático quanto aparentemente imbatível. Há dois Lula. O original, sindicalista e líder partidário, era uma personalidade marcante, mas não uma figura a quem se atribuíam qualidades de exceção. O atual, presidente da República, será provavelmente lembrado como o mais carismático político brasileiro desde Getúlio Vargas. A transição de um para o outro reflete tanto as mudanças no discurso político de Lula quanto as demandas de um tempo.

Golbery do Couto e Silva, a quem se atribuía o senso político de um mago, enxergou o Lula sindicalista do fim da década de 70 como o homem que destruiria a esquerda no Brasil. Durante um longo tempo, o das candidaturas frustradas, Lula pareceu contrariar a profecia do “mago”, discursando como um esquerdista clássico, no diapasão do conceito de luta de classes. Mas, entre a derrota de 1998 e a vitória de 2002, ele promoveu uma mudança decisiva no seu discurso, trocando a referência dos “trabalhadores” pela dos “pobres”. No lugar da luta de classes, entrou o conceito do Estado paternalista, que se traduziria pela imagem, várias vezes repetida por Lula depois da chegada ao Planalto, do presidente como chefe e provedor da grande família do povo.

“Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados.” O carisma político de Lula ergueuse sobre a base de um paternalismo conservador, que ganhou densidade por meio da concessão de aumentos reais do salário mínimo e da vasta distribuição de dinheiro vivo, por meio do Bolsa Família. Ironicamente, nada disso seria viável sem o ciclo de expansão especulativa da globalização que acaba de se encerrar.

O “sapo barbudo” de Leonel Brizola completou a sua transfiguração às vésperas do primeiro triunfo eleitoral, por meio da Carta aos Brasileiros, concebida por um punhado de ex-trotskistas. O documento, uma negação geral do programa do PT, era uma mensagem à elite financeira e empresarial do país: Lula estava dizendo que se convertera à defesa da ordem, da estabilidade e da ortodoxia econômica. Nada se devia temer do antigo suposto incendiário. Mais ainda: ele prometia subordinar o movimento sindical e a organização dos sem-terra à vontade do governo, assegurando uma paz social que não exclui estampidos esporádicos. O presidente tornou-se “o cara” dos muito ricos antes mesmo de se tornar “o cara” dos muito pobres.

Obama brincava, mas não completamente, ao formular o agrado que encheu o ego de Lula. Como reação às crises financeiras dos anos 90, o pêndulo da América Latina inclinou-se de novo para o antiamericanismo. O Lula triunfante de 2002, líder de um partido que abominava a globalização, era uma incógnita e uma esfinge. Quando, ainda no início do primeiro mandato, ele visitou Washington e declarou-se um parceiro de George Bush, começou a se tornar “o cara” na conturbada América Latina. De lá para cá, apesar da retórica balofa e de gestos abomináveis em defesa de ditaduras próximas ou distantes, o Brasil não só conservou seus compromissos com a ordem econômica internacional como rejeitou o projeto chavista de um bloco regional antiamericano. Lá fora, como aqui dentro, Lula é “o cara” porque governa segundo o vaticínio do finado Golbery.

* Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP, é colunista de O Estado de S. Paulo e O Globo