AGORA É LULA
O mundo precisa de um bom selvagem. Desde o sindicalista polonês e anticomunista Lech Walesa, não havia nenhum candidato a esse posto no universo do proletariado. Só que Lula soube ir além da fábrica.
por Mac Margolis*
Desde a primeira vez que vim ao Brasil, no início dos anos 80, Lula era o cara. O.k., não aquele da cúpula das Américas, de barba e discurso bem talhados, seguido pelos holofotes e – agora – ungido com saudação à basqueteiro (“my man!”) do presidente Barack Obama. À época, Lula era apenas o sindicalista, andava maltrapilho e discursava de dedo em riste, com megafone em vez de teleprompter. Só que, para nós, os jornalistas estrangeiros, ansiosos para coroar um novo símbolo latino-americano – um líder que peitasse os generais, oligarcas e quem quer que fosse do establishment – não tinha para mais ninguém. A “pauta” era Lula, só ele.
E como não? Era o tempo dos megacomícios, das caravanas e dos slogans exaltados (“Uma estrela sobe”, “Sem medo de ser feliz” e “Lula-lá”). E as urnas? Bem, se os eleitores não correspondiam ao frenesi gringo, paciência. Um dia, dizíamos a nós mesmos, haveriam os brasileiros de enxergar em Lula o cara que víamos o tempo todo. Era só uma questão de tempo para que ele chegasse lá.
De lá para cá o Brasil mudou e Lula, também. Tem alfaiate, trocou de discurso e, hábil político que é, já desmentiu boa parte do que pregava. Foi-se aquele cara que exigia a auditoria da dívida externa aos brados de “Fora FMI!”. “Você não acha chique que agora estamos emprestando dinheiro ao Fundo?”, brincou outro dia com jornalistas após a reunião do G-20. Dobrou a resistência dos investidores e credores, abraçando políticas que outrora apedrejava. E aquelas taxas de juros “mais escorchantes do mundo” que antes não cansava de denunciar? O novo Lula as abraça com afinco neoliberal. Que Dilma que nada: o pilar do governo brasileiro se chama Henrique Meirelles.
Hoje Lula divide palanques com mandachuvas internacionais e até posou ao lado da rainha da Inglaterra. No maior estilo “se eu fosse você”, até ensaia o papel do outro lado do balcão financeiro, dizendo não aos vizinhos em apuros, como o Paraguai, que reclama perdão da sua dívida com o Brasil. Lula continua festejado como “o cara”, só que agora quem faz a festa são outros. Como me disse o executivo de um fundo americano: “Os banqueiros adoram Lula”.
Certamente a festa em torno do Lula 2.0 sinaliza algo maior. Há um novo Brasil em gestação, que, merecidamente, desperta as atenções (e as pretensões) do mundo. Não é apenas Gisele Bündchen, Ronaldinho e toda aquela turma de havaianas que esbanja superávits de charme e ginga. É também o Brasil dos agronegócios e do biocombustível. A pátria do pré-sal, que sabe e ensina buscar energia nos cafundós. Confiança é o novo ativo do Brasil, que, talvez pela primeira vez, consiga converter o berço esplêndido em influência, reivindicando um assento junto às mais altas instâncias internacionais, do BIS ao Bird, do G-20 à OMC. Pelo menos assim reza a cartilha do marketing verde-amarelo.
O mundo, é claro, até que deu um bom empurrão. Passado o susto geral provocado pela sua eleição – em que Lula se viu obrigado a convencer o planeta de que não era mais o cara do barulho e do confronto –, encontrou a economia internacional em ebulição, banhada de liquidez e voraz pelas mercadorias das nações emergentes. “Lula pegou a onda perfeita”, me disse um ex-presidente do Banco Central. O antecessor também ajudou. Partiram da caneta de Fernando Henrique Cardoso as políticas básicas da agenda de Lula, desde as metas de inflação à bolsa-escola, versão mais enxuta do Bolsa Família. Melhor, calhou que os principais frutos dessas políticas – a inflação em queda, bancos sólidos, a diplomacia vitaminada, a desigualdade em queda – dessem para aparecer justamente na sua vigia. Lula também é um cara de sorte.
Há riscos, no entanto, quando se colhe louros alheios. O sucesso herdado pode subir à cabeça. Assim como o “esqueça o que escrevi” virou pecha de Fernando Henrique e “não me deixem só” carimbou a acidentada trajetória de Fernando Collor de Mello, o bordão “nunca antes nesse país” ainda pode vir a assombrar o governo Lula. Há uma fronteira tênue entre húbris e habilidade, e todo governante em alta flerta com ela – alguns com mais êxito que outros. Carisma e simpatia ajudam, é claro, como também uma boa biografia – ou back-story, na linguagem de jornalistas. Esses dotes Lula tem de sobra. Iniciativas modernizadoras de um polido diplomata têm um valor. Mas saem com ágio na mão calejada de um self-made man. É como se o mundo precisasse de um bom selvagem. Desde o sindicalista polonês e anticomunista Lech Walesa, não havia nenhum candidato a esse posto no universo do proletariado tratável. Só que Lula soube ir além da fábrica.
Líderes bem-sucedidos também fazem sua sorte. Se fosse apenas um carismático ou um populista tradicional, Lula subiria à varanda, prometeria a lua e provavelmente tombaria assim que o vento da fartura virasse. Mas ele é, sobretudo, um sobrevivente. Para chegar “lá” teve de se repaginar, encampando ideias e aliados exóticos que, mesmo malcheirosos, o sustentassem. Às vezes Lula não convence totalmente nesse novo papel de adestrado e se deixa levar pelos arroubos ideológicos do seu passado dirigista (com a palavra a imprensa e os cineastas nacionais), tal como o braço desgovernado de Peter Sellers na pele de Dr. Strangelove, no filme Doutor Fantástico – ou Como Parei de Me Preocupar e Aprendi a Amar a Bomba.
Mas logo passa e até os banqueiros branquinhos de olhos azuis sabem que o líder do Brasil não está à beira de uma recaída. Se Lula não gostou das políticas que herdou, soube preservá-las e, assim, amortecer o choque do tombo financeiro que ameaça tornar a sua marola em tsunami. O cara soube dar a volta por cima. Pode não ser o roteiro que guiava aqueles que viram em Lula a senha para perder o medo de ser feliz. Mas, para o Brasil, a história pode acabar melhor.
* Mac Margolis é correspondente no Brasil da revista americana Newsweek. Vive no Rio de Janeiro desde 1982
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